Ricardo Oliveira
Nutricionista
Nós fomos caçadores colectores, recolhíamos o que podíamos e o que a natureza oferecia. A nossa fisionomia e fisiologia são exemplo claro da nossa evolução ao longo dos tempos, e do modo como foram sendo seleccionadas as características que melhor se adaptavam ao meio ambiente. Uma destas características tem a ver com a disponibilidade alimentar. Ou seja, a selecção natural privilegiou os indivíduos com genes que melhor se adaptam a uma alimentação variada e equilibrada. O resultado desta pressão selectiva é um indivíduo económico que invariavelmente desenvolve alterações metabólicas em situações de abundância.
As doenças ditas da «civilização» (doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, certos tipos de cancro, complicações biliares, anormalidades menstruais, artrites e gota), são um indicador evidente deste desequilíbrio entre a nossa herança genética e um estilo de vida, cujas práticas diárias não respeitam a harmonia fisiológica a que fomos habituados durante milhares de anos.
As sucessivas revoluções alimentares originadas nos países mais desenvolvidos com melhorias significativas na produção animal e vegetal, trouxeram excedentes alimentares e obrigaram estas populações a criarem mecanismos de gestão e comercialização destes excedentes. A par de cada uma destas revoluções alimentares, cresceram as diferenças entre os países desenvolvidos e não desenvolvidos. Curiosamente, nos países desenvolvidos com o controlo assegurado da produção alimentar e consequente aumento da disponibilidade e crescimento das populações, surgiram mais doenças. Este resultado deve-se ao facto de ter aumentado a quantidade de alimentos disponíveis, mas ter diminuído a diversidade de alimentos consumidos associado a alterações do estilo de vida. Duas regras vitais de uma alimentação equilibrada, quantidade moderada e variedade na escolha alimentar. A Organização Mundial de Saúde considera a Obesidade como a epidemia do século XXI.
Nos países não desenvolvidos, a fome, é responsável por danos irreversíveis nas populações afectadas. A organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) refere que “para é importante reconhecer a intricada conexão existente entre a fome e a pobreza. Se a fome é consequência da pobreza, o inverso também é verdade”.
Em ambos os casos, a fome e a abundância são sinónimos de má nutrição, com complicações a médio e longo prazo.